OBS#5: Respostas que eu devia dar aos desaforos.

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Cena do filme Ghost World, de Terry Zwigoff

No último post da coluna OBS eu já havia dito sobre a dificuldade que é manter amizade com amigos da época da escola. Coincidentemente, recebi um convite no fim de semana para ir ao aniversário de uma antiga amiga. De início hesitei, pois não tenho mais contato com algumas conhecidas que iriam. Na verdade, nem tenho contato com a aniversariante. Só tenho contato com uma das amigas que iria.

Vamos dar nome fictícios aos bois?

Andréia é a aniversariante.

Juliana e Paula são duas garotas com quem não tenho mais contato, mas éramos muito amigas na época de escola.

Eduarda é minha amiga desde a infância e ficou de dar carona ao grupo.

Eduarda, por não me ver há algum tempo, insistiu que eu fosse. Aceitei por sentir falta dela e de Andréia, mas já sentia que poderia ser terrível um encontro com Juliana e Paula (pelos mesmos motivos que cito no OBS #4).

Sou uma pessoa extremamente pessimista, e nem sempre minhas previsões se concretizam. Ás vezes, tudo consegue ser muito pior do que imaginei. Foi o caso da noite de ontem. A noite foi ruim desde a carona: tive que responder muitas, MUITAS, perguntas pessoais. Não importa se já tivemos intimidade um dia, se perdemos o contato, já não existe tanta liberdade quanto antigamente.

Chegando no “barzinho tranquilo” da festa de Andréia, encontramos uma casinha lotada, com música alta demais e, a cereja do bolo, baratas circulavam à vontade entre os frequentadores. A aniversariante passou menos de um minuto conosco durante todo o tempo que estivemos lá, ou seja, eu devia ter ficado em casa assistindo um filme.

Desesperada, resolvi pedir logo uma garrafa 600mL de cerveja, que foi roubada de mim cinco minutos depois. Já disse isso muitas vezes, mas esse foi o pior rolê da minha vida (até agora).

O que mais me deixou desconfortável ontem à noite foi ter que levar desaforos disfarçados de perguntinhas casuais. Eu sei que ontem à noite não me perguntaram coisas como quem não quer nada. Eu sei também que eu deveria ter sido deselegante e falar umas boas verdades.

Já que não posso voltar no tempo, resolvi lavar a roupa suja aqui mesmo.

Andréia, você continua sendo uma das pessoas mais bonitas que conheço. Agora, por favor, você já foi mais simpática. Sei que não nos falamos mais, mas se você diz que faz questão que pessoas vão à sua festa, passe um pouco do seu tempo com elas. De você eu não fiquei com raiva, na verdade, mas quis dar esse toque. Grata.

Juliana, eu quero mandar você para um convento! Não pergunte tanto os detalhes de relacionamentos amorosos às pessoas. Não pergunte se um namoro de dois anos vai dar em casamento, ou algo assim. Principalmente, não insinue que, porque um casal não quer se casar, não existe afeto verdadeiro na relação. Outra coisa: não adianta ficar pagando de pessoa politizada e socialista nas redes sociais se você acha justificável alguns preconceitos. Aliás, sair do mundo corporativo para trabalhar com educação não é fracasso.

Paula, eu não gosto de você faz tempo. Você sempre foi uma pessoa maldosa, e é triste que você tenha pisado tanto em mim quando éramos amigas. Nunca precisei lhe dizer por que nos afastamos: você teve medo de mim quando comecei a me impor. Tenho pena de você sempre fazer amizade com pessoas que são mais inseguras que você. Tenho pena dessa relação de poder que você quer criar. Tenho pena por você achar que é mais esperta que todos por fazer medicina e não ter que trabalhar. Eu só não tenho pena quando você quer humilhar a todos. Odiei ver como você quer fazer todo mundo parecer hipócrita. Sim, há dez anos atrás eu devo ter reproduzido alguma opinião machista – eu felizmente não me recordo do que você afirmou com tanta certeza. Hoje eu sou uma mulher totalmente diferente da menina que eu era com doze anos. Eu acho que você deveria tomar vergonha na cara e assumir que a hipócrita naquele carro era você, que fala de ecologia, mas acha absurda a ideia de não ter carro – aliás, você tem dois carros.

Eduarda, sei que eu e você brigamos muito ao longo da nossa amizade. Temos atitudes e ideias muito diferentes. Independente de tudo isso, admiro a mulher que está se transformando. Só temo que você baixe demais a cabeça. Você não tem que deixar as pessoas tirarem sarro de você ou lhe menosprezarem. Nem tudo pode ser considerado brincadeira. Eu torço muito por seu sucesso e que você tenha cada vez mais força.