OBS#5: Respostas que eu devia dar aos desaforos.

19893922

Cena do filme Ghost World, de Terry Zwigoff

No último post da coluna OBS eu já havia dito sobre a dificuldade que é manter amizade com amigos da época da escola. Coincidentemente, recebi um convite no fim de semana para ir ao aniversário de uma antiga amiga. De início hesitei, pois não tenho mais contato com algumas conhecidas que iriam. Na verdade, nem tenho contato com a aniversariante. Só tenho contato com uma das amigas que iria.

Vamos dar nome fictícios aos bois?

Andréia é a aniversariante.

Juliana e Paula são duas garotas com quem não tenho mais contato, mas éramos muito amigas na época de escola.

Eduarda é minha amiga desde a infância e ficou de dar carona ao grupo.

Eduarda, por não me ver há algum tempo, insistiu que eu fosse. Aceitei por sentir falta dela e de Andréia, mas já sentia que poderia ser terrível um encontro com Juliana e Paula (pelos mesmos motivos que cito no OBS #4).

Sou uma pessoa extremamente pessimista, e nem sempre minhas previsões se concretizam. Ás vezes, tudo consegue ser muito pior do que imaginei. Foi o caso da noite de ontem. A noite foi ruim desde a carona: tive que responder muitas, MUITAS, perguntas pessoais. Não importa se já tivemos intimidade um dia, se perdemos o contato, já não existe tanta liberdade quanto antigamente.

Chegando no “barzinho tranquilo” da festa de Andréia, encontramos uma casinha lotada, com música alta demais e, a cereja do bolo, baratas circulavam à vontade entre os frequentadores. A aniversariante passou menos de um minuto conosco durante todo o tempo que estivemos lá, ou seja, eu devia ter ficado em casa assistindo um filme.

Desesperada, resolvi pedir logo uma garrafa 600mL de cerveja, que foi roubada de mim cinco minutos depois. Já disse isso muitas vezes, mas esse foi o pior rolê da minha vida (até agora).

O que mais me deixou desconfortável ontem à noite foi ter que levar desaforos disfarçados de perguntinhas casuais. Eu sei que ontem à noite não me perguntaram coisas como quem não quer nada. Eu sei também que eu deveria ter sido deselegante e falar umas boas verdades.

Já que não posso voltar no tempo, resolvi lavar a roupa suja aqui mesmo.

Andréia, você continua sendo uma das pessoas mais bonitas que conheço. Agora, por favor, você já foi mais simpática. Sei que não nos falamos mais, mas se você diz que faz questão que pessoas vão à sua festa, passe um pouco do seu tempo com elas. De você eu não fiquei com raiva, na verdade, mas quis dar esse toque. Grata.

Juliana, eu quero mandar você para um convento! Não pergunte tanto os detalhes de relacionamentos amorosos às pessoas. Não pergunte se um namoro de dois anos vai dar em casamento, ou algo assim. Principalmente, não insinue que, porque um casal não quer se casar, não existe afeto verdadeiro na relação. Outra coisa: não adianta ficar pagando de pessoa politizada e socialista nas redes sociais se você acha justificável alguns preconceitos. Aliás, sair do mundo corporativo para trabalhar com educação não é fracasso.

Paula, eu não gosto de você faz tempo. Você sempre foi uma pessoa maldosa, e é triste que você tenha pisado tanto em mim quando éramos amigas. Nunca precisei lhe dizer por que nos afastamos: você teve medo de mim quando comecei a me impor. Tenho pena de você sempre fazer amizade com pessoas que são mais inseguras que você. Tenho pena dessa relação de poder que você quer criar. Tenho pena por você achar que é mais esperta que todos por fazer medicina e não ter que trabalhar. Eu só não tenho pena quando você quer humilhar a todos. Odiei ver como você quer fazer todo mundo parecer hipócrita. Sim, há dez anos atrás eu devo ter reproduzido alguma opinião machista – eu felizmente não me recordo do que você afirmou com tanta certeza. Hoje eu sou uma mulher totalmente diferente da menina que eu era com doze anos. Eu acho que você deveria tomar vergonha na cara e assumir que a hipócrita naquele carro era você, que fala de ecologia, mas acha absurda a ideia de não ter carro – aliás, você tem dois carros.

Eduarda, sei que eu e você brigamos muito ao longo da nossa amizade. Temos atitudes e ideias muito diferentes. Independente de tudo isso, admiro a mulher que está se transformando. Só temo que você baixe demais a cabeça. Você não tem que deixar as pessoas tirarem sarro de você ou lhe menosprezarem. Nem tudo pode ser considerado brincadeira. Eu torço muito por seu sucesso e que você tenha cada vez mais força.

Anúncios

OBS #4: É difícil manter amizade.

15281279._SX540_

Arte da HQ “Ghost World”, de Daniel Clowes

 

É muito difícil manter contato com as pessoas.

Vou partir de experiências pessoais: eu já passei pelo Ensino Médio um dia. Lembro claramente do meu último ano escolar, da pressão para escolher o meu “futuro” (porque nessa fase realmente nos fazem acreditar que começaremos de fato “vida real” aos 18 anos). Preciso mencionar o vestibular?

Como se não bastassem cobranças que não precisariam ser tão estressantes quanto eram, aconteceu uma espécie de fenômeno com o “terceirão”: todo mundo resolveu se unir e promover uma festa de formatura.

Acho que não foi exclusividade da minha turma, mas aquilo tinha muita hipocrisia. Gente que até o ano anterior se odiava passou a se amar. Junto veio mais pressões desnecessárias: se dar bem com todo mundo e manter contato com todos mesmo depois de se formar.

Muita gente já se sentiu ofendida com isso, mas eu nunca fui uma pessoa fácil de manter contato. Pareço ter uma preferência por pessoas que não exigem uma frequência de notícias. Para você que ainda está na escola: não parece, mas é muito difícil manter a amizade com a maioria dos seus amigos atuais.

Nessa época eu (felizmente) não me senti comovida por esse discurso todo. Quando digo felizmente não é egoísmo, nem um jeito de me achar mais madura que as pessoas ali – eu não era e sabia disso. Talvez por eu sempre ter sido uma pessoa introvertida e de pouquíssimos amigos próximos, eu já sabia que não veria a maioria daquelas pessoas depois da formatura. Pensava isso até mesmo de pessoas que gostava. Hoje tenho amizade com apenas duas pessoas com quem falava na época. Ter noção da dificuldade de manter amizades só me poupou de mais uma pressão em uma fase que eu estava cheia de crises existenciais.

Existem vários fatores que dificultam esse contato.

1-) CADA UM VAI PRO SEU LADO: Provavelmente cada um de seus amigos vai para uma universidade diferente da sua – isso se vocês tiverem isso como plano, é claro. Cada um vai cursar o curso que escolheu. Pode ser que alguns de seus amigos mudem de cidade, estado ou até mesmo país! Logo vocês vão ter que trabalhar – e as agendas raramente vão bater…

2-) VOCÊ E SEUS AMIGOS VÃO FAZER NOVAS AMIZADES: Além disso, você vai passar muito mais tempo com esses novos amigos e criar uma intimidade muito maior com eles.

3-) ÁS VEZES, PARA MANTER AMIZADE COM UMA PESSOA, VOCÊ VAI TER QUE MANTER AMIZADE COM GENTE QUE VOCÊ NÃO GOSTA: Eu sei que você tem que aturar alguém que você detesta. Todo mundo passa por isso. No caso da escola, você provavelmente não vai ser mais obrigada a aturar aquela(s) pessoa(s) chata(s) que você atura hoje. Infelizmente, ver alguém que você gosta pode implicar ver uma galera que você não suporta. Isso já aconteceu comigo. Depois que você tem alguns colegas de trabalho para aturar, sua tolerância baixa; aí sinto muito.

4-) VOCÊ E SEUS AMIGOS VÃO MUDAR MUITO: Em apenas dois anos, eu e a maioria dos meus antigos colegas éramos pessoas totalmente diferentes. Claro que tem quem seja imaturo e se esconda atrás de um discurso forever young…. Mas, acredite, você terá ideias diferentes das que tem hoje e seus amigos também. Claro que é ótimo ter um grupo com opiniões diferentes – fica a dica. Porém, ás vezes alguns valores divergem DEMAIS e ninguém é de ferro: pode sair uma briga sim.

Não culpe seus antigos amigos por não terem conseguido manter contato, e não se culpe também. É natural perder o contato com as pessoas. Isso vai acontecer com seus amigos de faculdade, com seus amigos do emprego atual…. Você não pode viver de saudade, mas pelo menos valorize o que cada pessoa que passou em sua vida deixou para você. Algumas delas foram relevantes para você ser quem é hoje.